Às vezes me ponho a pensar filosoficamente sobre diversas manifestações da arte, e como elas se relacionam. Eu, que me arrisco por alguns campos dela, acabei concluindo uma série de fatores curiosos. Eu desenho e crio histórias desde o primórdio de minha consciência, mas comecei a me aventurar pela área da música bem mais tarde. Talvez até por isso eu tenha desistido logo no início do curso superior de Piano para terminar o de Design Gráfico. Sou de fato um ilustrador (Talvez nem Designer Gráfico eu seja, se formos priorizar). Quando comecei a tocar, o fiz sozinho, autodidata e segredo. Sim, em segredo, porque eu fui (sou talvez) vítima de uma grande timidez durante boa parte do início de minha vida. Quando descobri que conseguia tocar no piano exatamente as notas que estavam ecoando em minha mente, me surpreendi com um mundo novo de possibilidades. Já não bastava mais desenhar meus personagens, criar suas histórias e produzir suas páginas de quadrinhos. Comecei imediatamente a compor trilhas para determinadas cenas, tentando fazer desse som parte de um todo. Naturalmente comecei a me interessar muito mais por desenho animado.
Depois de um tempo, já com uma destreza básica no piano resolvi aprender a tocar violão. A princípio parecia difícil, mas quando vi já saia alguma coisa mais interessante. Engraçado foi quando minha família me descobriu. Eu ia saindo de casa com o violão e minha mãe me indagou: "O que tu ta fazendo com esse violão? - Estou levando para o colégio mãe! - Mas tu não sabe tocar!!??". Só que eu já sabia. Alguns anos depois consegui um velho contrabaixo elétrico que foi do meu pai, e comecei a tocar com um conjunto em festas e missas católicas. Eu nunca sabia que música iriam tocar, as vezes nem mesmo conhecia a música, mas graças a simplicidade do baixo, e a aparente matemática existente na música eu conseguia acompanhar. Por então tratar de diferentes atuações dentro da música, meus dotes começaram a ficar treinados. Peguei, de ouvido, boa parte do primeiro movimento da Sonata ao Luar, de Bethoven, e, devido ao êxito, comecei a estudar um pouco de piano com meu tio, um excelente pianista.
Logo já sabia tocar a música inteira e outras tantas, além de melhorar muito a minha destreza. É aí que eu gostaria de fazer um cruzamento de raciocínio com as artes plásticas. Por dedicar algum tempo à música, acabei por dedicar menos tempo ao desenho. Mas nem por isso parei de evoluir meu traço e meu poder de observação. Muito pelo contrário, acho que acabei por otimizar essa percepção à além do sentido Visual. De alguma forma a arte em si é interligada, mas como??
A maneira mais fácil de exemplificar é com animação bem feita. O exemplo que se segue vai tornar desnecessário que eu escreva muito sobre isso. São dois trechos do longa metragem "O Rei Leão" da Disney. Apenas imaginem como seria essa cena sem a dramaticidade da música, ou sem a palheta cuidadosamente escolhida de cores, ou ainda sem a natureza dos movimentos e expressões finamente ilustrados. Tudo isso foi perfeitamente combinado, cada um potencializando o outro como num contraste complementar multi-sensorial.
Um dos detalhes curiosos que concluí é que Música e Desenho são dois lados de uma mesma moeda. Enquanto para desenhar, gastamos um tempo razoavelmente demorado, que exige uma construção prévia à apreciação final; na música gastamos o tempo que ela dura para produzi-la, e sua apreciação é em tempo real. A música é arte instantânea, enquanto o desenho é arte contemplativa de tempo livre. A música é uma arte extremamente extrovertida, já que, a não ser que eu toque muito baixo, quem estiver por perto vai ouvir querendo ou não. Já o desenho é uma forma de arte tímida, introvertida. Só vai ser apreciado se o autor assim o quiser. Sob o foco da arte sendo produzida, as duas são sensivelmente parecidas, pois ambas geram um prazer enorme ao serem concebidas, ambas necessitam de muito carinho, um verdadeiro ato de amor, por parte do artista para com a superfície escolhida. Que máquina fantástica é o corpo humano, capaz de utilizar seus sentidos para sentir simplesmente. É isso que nos faz diferentes do restante do reino animal, e não o "ser racional". Mesmo que de forma primitiva, os animais também raciocinam. Já, por outro lado, quando provocamos nossos sentidos pela simples razão de os provocar, é, para mim, o ato que consiste em humanidade, e é isto que chamamos de arte.
Muito mais coisas podem ser ditas sobre isso tudo, só que hoje eu paro por aqui.
Agradeço a atenção de vocês,
Um grande abraço
Eduardo Hoewell



















